 |

MALÁRIA
Básico
Tabelas
Mapas
Elaborado
por Araripe Pacheco Dutra
- Histórico
- Aspectos
Epidemiológicos
- Definição
- Magnitude e Distribuição Geográfica
- Ciclo de vida dos parasitas
- Ciclo de vida do parasita no mosquito
- Ciclo de vida do parasita no homem
- Transmissor
- Modos de transmissão da malária
- Período de transmissibilidade
- Período de incubação
- Susceptibilidade
e imunidade
- Aspectos
clínicos
- Diagnóstico
- Tratamento
- Investigação
epidemiológica
- Prevenção
- Teses e publicações científicas
1.
HISTÓRICO
A malária é uma
doença que acomete o homem desde a pré-história. Originada provavelmente
no Continente Africano, que é entendido como o "Berço da Humanidade",
acompanhou a saga migratória do ser humano pelas regiões do Mediterrâneo,
Mesopotâmia, Índia, e Sudeste Asiático. A chegada da doença ao Novo
Mundo ainda hoje é motivo de especulações, já que não se dispõe de informações
confiáveis. É possível discutir hipóteses tais como viagens transpacíficas
em tempos remotos, bem como viagens de colonizadores espanhóis e portugueses
a partir do século XVI.
Apesar de a associação com a malária ser incerta, existem referências
a febres sazonais e intermitentes em textos religiosos e médicos bastante
antigos, entre os assírios, chineses e indianos, que relacionavam a
doença à punição de deuses e presença de maus espíritos. No século V
a.C., na Grécia, Hipócrates foi o primeiro médico a descartar a superstição
e relacionar a doença às estações do ano ou aos locais freqüentados
pelos doentes. Também foi o primeiro a descrever detalhadamente o quadro
clínico da malária e algumas de suas complicações. Depois dele, no século
II d.C., diversos médicos gregos e romanos deixaram várias referências
sobre a doença, que ocorria em epidemias cíclicas na Grécia, Itália
e diversas partes da Europa, onde era conhecida como "Febre Romana".
Durante quase 1500 anos pouco foi acrescentado ao conhecimento sobre
a doença e seu tratamento. Somente no século XVII ocorreu a observação
por padres jesuítas da utilização, por populações indígenas da América
do Sul, da casca de uma árvore nativa para o tratamento de alguns tipos
de febre. Seu uso se espalhou rapidamente pela Europa e passou a ser
conhecido como "pó dos jesuítas" e a árvore de onde era extraído recebeu
o nome de Cinchona em 1735. Seu princípio ativo, o quinino, foi isolado
em 1820.
No século XVIII a doença recebeu o nome italiano de "mal aire", que
significa mau ar ou ar insalubre, já que à época acreditava-se que era
causada pelas emanações e miasmas provenientes dos pântanos.
Somente no final do século XIX, quando bacteriologistas e patologistas
estavam descobrindo as causas de diversas doenças infecciosas, com a
observação de alterações mórbidas em órgãos e tecidos, bem como notando
o papel de insetos na transmissão de algumas doenças, é que o conhecimento
sobre a malária passou por um período de importantes descobertas. Em
1880, o médico do exército francês Charles Alphonse Laveran, trabalhando
na Argélia, foi o primeiro a observar e descrever parasitas da malária
no interior de glóbulos vermelhos humanos. Em 1897, o médico britânico
Ronald Ross, trabalhando na Índia, tornou possível a elucidação do modo
de transmissão, a encontrar formas do parasita da malária no interior
de um mosquito que havia se alimentado em um portador da doença. O quadro
completo do ciclo de desenvolvimento do parasita da malária no homem
e na fêmea do mosquito Anopheles foi obtido posteriormente graças
aos pesquisadores italianos Amico Bignami, Giuseppe Bastianelli e Batista
Grassi, em estudos realizados entre 1898 e 1899.
Durante a primeira metade do século XX muitas pesquisas eram dedicadas
ao controle da malária, especialmente no sentido de reduzir ou eliminar
a presença de criadouros do inseto transmissor, o que se mostrou bastante
eficiente em algumas situações. Exemplo maior, foi a eliminação da infestação
pelo Anopheles gambiae, mosquito de origem africana e talvez
o melhor vetor da doença no mundo, que no final da década de 1930 invadiu
a região nordeste do Brasil. Independentemente de quaisquer dificuldades
que o inseto possa ter encontrado para se adaptar ao novo ambiente,
sem duvida o que se mostrou decisivo na sua eliminação foi o árduo trabalho
de todos os envolvidos na brilhante ação, lançando mão de todos os conhecimentos
e recursos existentes à época.
Em outra direção, as dificuldades no fornecimento do quinino durante
a Primeira Guerra Mundial estimularam pesquisadores alemães para a obtenção
de antimaláricos sintéticos, culminando com o desenvolvimento da pamaquina
(1924), mepacrina (1930) e cloroquina (1934).
Paralelamente, eram desenvolvidos estudos para a síntese de substâncias
com ação inseticida, que apresentaram seu ápice em 1942, com a obtenção
por Paul Muller do composto dicloro-difenil-tricloroetano (D.D.T.),
que apresentava grande atividade inseticida, grande poder residual e
baixo custo.
Com base nos conhecimentos adquiridos sobre o inseto transmissor, que
apresentava atividade no interior dos domicílios, sendo que após o repasto
sangüíneo repousava por horas nas paredes internas das casas, nas características
do DDT, que poderia ser aplicado nas paredes, e na existência de drogas
efetivas para o tratamento, muitos foram levados a crer na possibilidade
de a doença ser erradicada, pela eliminação do parasita e não necessariamente
do mosquito.
Tendo sido este conceito adotado na Assembléia Mundial de Saúde em 1955,
a Organização Mundial da Saúde lançou em 1957 as bases para a Campanha
Mundial de Erradicação da Malária, que incluía uma fase preparatória,
com a identificação de todas as áreas malarígenas e seus imóveis em
condições de receber a aplicação do inseticida, seguida de uma fase
de ataque, com a borrifação semestral de DDT nos imóveis, tratamento
de todos os moradores com sintomas, coleta de amostras de sangue para
confirmação laboratorial e aplicação de medidas de controle de criadouros
dos mosquitos (drenagem, aplicação de larvicidas, etc...). Nesta fase
era obrigatória a observação do princípio de cobertura total.
A terceira, ou de consolidação, tinha lugar após 3 ou 4 anos, desde
que não mais fossem detectados casos autóctones ou a região apresentasse
incidência muito baixa (menor que 0,1casos/1000 habitantes). Também
era necessário que a possibilidade de reativação de focos de transmissão
fosse mantida níveis extremamente baixos.
A última fase, ou de manutenção, tinha início quando, após a completa
cessação de uso de inseticidas por no mínimo três anos consecutivos,
não havia evidências de transmissão natural da malária e a vigilância,
visando manter a erradicação, passaria para os serviços gerais de saúde.
Como conseqüência, por volta de 1970, os programas de erradicação haviam
livrado do risco da doença cerca de 53% da população residente em áreas
malarígenas, evitando milhões de mortes e contribuindo para o desenvolvimento
sócio-econômico de grandes áreas, especialmente na Ásia, sul e sudeste
da Europa e nas Américas.
Entretanto, devido à redução das atividades de controle, crises econômicas,
aumento dos custos dos inseticidas, surgimento de resistência dos anofelinos
aos inseticidas e dos parasitas aos antimaláricos, a situação se deteriorou
na década de 1980 e, exceção feita à Europa e América do Norte, ocorreu
o aumento progressivo no número de casos na maioria dos países. Isto
levou à revisão da estratégia global de erradicação e à decisão de adotar
atividades de controle integradas a programas nacionais de longo termo,
visando reduzir os níveis de transmissão, contando com a participação
da comunidade, para alcançar êxito nas atividades que dela dependessem.
Desta forma, aliando-se medidas de controle do vetor, acesso ao diagnóstico
laboratorial e tratamento eficaz e imediato, tornou-se possível ao menos
obter redução significativa da morbidade e, especialmente, da mortalidade
por malária. Porém, ainda hoje a doença se faz presente em cerca de
100 países, especialmente na África, Ásia e Américas Central e do Sul.
2. ASPECTOS
EPIDEMIOLÓGICOS
Magnitude
e Distribuição Geográfica: A malária está presente nas regiões tropicais
e subtropicais do planeta. O maior foco de transmissão é a África Sub-Sahariana
onde ocorrem 90% dos casos no mundo. A malária é endêmica 53 países
na África (incluindo 8 países ao sul), em 21 países nas Américas, 4
países na Europa e 14 na região leste do Mediterrâneo, e no sudeste
Asiático. A cada ano ocorrem, ocorrem 300 a 500 milhões de casos, com
cerca de 1 milhão de óbitos. Estes óbitos ocorrem na África, em áreas
remotas com difícil acesso aos serviços de saúde. Dos 25 a 30 milhões
de pessoas que viajam para áreas endêmicas, entre 10 a 30 mil contraem
malária.
Área
endêmica de Malária

Fonte: Adaptado da
OMS
1997
No Brasil, a área
endêmica é conhecida como Amazônia Legal. Esta área é composta pelos
estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso
do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
Malária
no Brasil

Fonte: FNS/MS e SUCEN,
1994
Número
de casos no Brasil
No Estado de São
Paulo, a transmissão natural da doença ocorre em duas regiões geográficas
distintas:
- A primeira, representada pela região da Serra do Mar, ecossistema
ainda em boa parte preservado e com presença da Mata Atlântica, onde
anofelinos vetores do subgênero Kerteszia podem ser encontrados
em alta densidade. Porém, mesmo nestas condições, somente um pequeno
número de casos é detectado a cada ano.
- A segunda, representada
pela Região Oeste do estado, em especial nas áreas de influência das
baciasbn+ hidrográficas dos rios Paraná, Paranapanema e São José dos
Dourados, onde a presença de anofelinos vetores do subgênero Nyssorhynchus,
aliada ao trânsito de portadores da doença provenientes da Região Amazônica,
constitui-se em ponto de atenção para o controle, uma vez que os eventuais
focos derivados dessa situação podem apresentar caráter explosivo, exigindo
sempre uma atuação rápida e eficiente a fim de reduzir os riscos para
a população local e evitar a reinstalação de transmissão perene na área.
Situação
Epidemiológica no Estado de São Paulo
Casos
autóctones de malária. Estado de São Paulo, 1990
a 1999.

Fonte: DOT/SUCEN
Municípios/localidades
com transmissão no Estado de São Paulo 1995-2000
Definição:
É uma doença infecciosa, causada por um protozoário unicelular, do gênero
Plasmodium e transmitida de uma pessoa para outra, por meio da
picada de um mosquito do gênero Anopheles, por transfusão de
sangue ou compartilhamento de agulhas e seringas infectadas com plasmódios.
Agente
etiológico: São parasitas pertencentes à Ordem Coccidiida, Sub-Ordem
Haemosporidiidea, Família Plasmodiidae, Gênero Plasmodium. As
espécies de plasmódio que afetam o ser humano são:
- Plasmodium vivax (Grassi & Feletti, 1890)
- Plasmodium falciparum (Welch,1897)
- Plasmodium malariae (Laveran, 1881)
- Plasmodium ovale (Stephens,1922)
Ciclo
de vida dos parasitas da malária: Nas quatro espécies de plasmódios
que afetam o ser humano, o ciclo de vida é essencialmente o mesmo. Apresenta
uma fase sexuada exógena (esporogonia) com a multiplicação dos parasitas
em certos mosquitos do gênero Anopheles e uma fase assexuada
endógena (esquizogonia) com a multiplicação no hospedeiro humano. Esta
última fase inclui o ciclo que ocorre nas células do parênquima hepático
( esquizogonia tecidual) e o ciclo que se desenvolve nos glóbulos vermelhos
(esquizogonia eritrocítica).
Ciclo
de vida do parasita no mosquito: Enquanto os anofelinos machos se
alimentam somente de néctar e seiva vegetal, as fêmeas necessitam de
sangue em sua alimentação, para o amadurecimeto de seus ovos e possibilitar
a oviposição. Assim, após uma fêmea do mosquito Anopheles ingerir
sangue de um hospedeiro humano contendo as formas sexuadas do parasita
(gametócitos) inicia-se uma fase sexuada no interior de seu estômago
com a fecundação e formação de um ovo ou zigoto. Posteriormente, o zigoto
migra através da camada única de células do estômago do mosquito, posicionando-se
entre esta e sua membrana basal. Deste modo, por esporogonia, resultam
centenas de formas infectantes (esporozoitas) que migram para as glândulas
salivares do inseto, as quais poderão, no momento da picada, ser inoculadas
no ser humano.
Ciclo
de vida do parasita no homem: Ao picar um animal ou o homem os mosquitos,
de um modo geral, injetam uma pequena quantidade de saliva que serve
basicamente como um anticoagulante. É nesta saliva que, caso o mosquito
esteja infectado, podem se encontrar os esporozoítas. Após a inoculação
das formas infectantes, pela picada de um mosquito contaminado, passa-se
um breve período de cerca de 30 minutos em que os esporozoitas circulam
livres pelo sangue. Neste curto período alguns deles são fagocitados,
porém, vários deles podem alcançar o fígado e, no interior das células
hepáticas, os plasmódios passam por uma primeira divisão assexuada (esquizogonia
tecidual). Decorridos alguns dias, tendo sido produzidos alguns milhares
de novos parasitas, a célula do fígado se rompe e os plasmódios tem
acesso ao sangue onde invadem os glóbulos vermelhos. Novamente, se multiplicam
de forma assexuada (esquizogonia eritrocítica), em ciclos variáveis
(de 24 a 72 horas), cada parasita produzindo de 8 a 32 novos exemplares,
em média e de acordo com a espécie envolvida. Depois de alguns ciclos
( 3 ou 4) surgem os sintomas da doença. Este intervalo que vai desde
a picada infectante até o início dos sintomas é chamado
Período
de Incubação: e dura em média 15 dias. Uma situação diferente
pode ocorrer nos casos de P.vivax e P.ovale . Trata-se
da possibilidade de que alguns dos esporozoítas inoculados pela picada
do anofelino não sigam a evolução normal do período de incubação.
Estes esporozoítas atingem o interior do hepatócito, porém permanecem
em estado de latência por períodos que variam de 1 mês a 1-2 anos.
Por esta característica recebem o nome de hipnozoítas. Nestes casos,
que recebem a denominação de recaídas, a pessoa infectada volta a
apresentar a doença por uma ou mais vezes após o tratamento inicial,
mesmo que não tenha freqüentado áreas com transmissão, devido a reativação
dos hipnozoítas. Os mecanismos envolvidos no desencadeamento desta
reativação ainda não foram esclarecidos.
Transmissor:
Também conhecido como pernilongo, carapanã e mosquito-prego, o inseto
transmissor da malária é um culicídeo do gênero Anopheles, dos
sub-gêneros: Anopheles, Cellia, Nyssorhyncus e Kerteszia
Existem cerca de 400 espécies de mosquitos do gênero Anopheles
no mundo, mas somente em torno de 60 delas são vetoras sob condições
naturais e, destas, trinta apresentam importância epidemiológica. No
Brasil, as espécies mais importantes na transmissão da doença são:
Anopheles (Nyssorhynchus) darlingi - Root,1926
Anopheles (Nyssorhynchus) albitarsis - Lynch Arribalzaga,
1878
Anopheles (Nyssorhynchus) deaneorum - Rosa-Freitas,
1989
Anopheles (Nyssorhynchus) aquasalis - Curry, 1932
Anopheles (Kerteszia) cruzii - Dyar&Knab, 1908
Anopheles (Kerteszia) bellator - Dyar&Knab, 1908
É importante ter sempre em mente que outras espécies de anofelinos podem
apresentar importância local e/ou transitória, mesmo na absoluta ausência
das acima apontadas.
Ciclo
de vida do vetor: As fêmeas das diversas espécies de anofelino
colocam seus ovos em coleções hídricas as mais distintas, na dependência
do criadouro que se mostra mais adequado para a espécie a que pertencem.
Estes criadouros podem ser grandes lagos ou lagoas, remansos de rios
e córregos, represas artificiais, valas de irrigação, alagados, manguezais,
pântanos e até mesmo plantas da família das Bromeliáceas, conhecidas
como bromélias, gravatá, caraguatá, etc...
Entretanto, todos eles têm algo em comum, qual seja, o baixo teor
de matéria orgânica presente, o que permite dizer que águas poluídas,
especialmente em áreas urbanizadas, raramente poderão servir para
a reprodução destes insetos. A fêmea fecundada coloca seus ovos em
um destes criadouros. São ovos isolados, medindo cerca de 0,5 milímetro
de comprimento e dotados de flutuadores nas laterais que permitem
que permaneçam na superfície da água.
Dos ovos surgirão as larvas, que se transformam em pupas, que por
sua vez dão origem aos adultos. A duração deste desenvolvimento de
ovo a adulto varia de 7 a 20 dias, na dependência da temperatura.
As fêmeas são fecundadas uma só vez em momento próximo à sua saída
do meio aquático ( no final da evolução da pupa), mas podem permanecer
colocando ovos férteis, a cada dois a quatro dias, durante toda a
sua vida, que é de cerca de 30 dias. Este tempo de vida pode variar
muito conforme fatores tais como temperatura e umidade do ar, principalmente.
Por outro lado, o anofelino macho vive por um tempo bem menor que
as fêmeas e, não raro, por uns poucos dias. De grande importância
é lembrar que, ao nascer, as fêmeas de mosquitos são incapazes de
transmitir qualquer doença. Isto somente ocorrerá se após alguns dias,
ao alimentar-se com sangue de algum animal ou de um ser humano, estas
fêmeas ingerirem também formas viáveis de parasitas, como é a situação
aqui apresentada com o anofelino e o plasmódio.
Modos
de transmissão da malária
Transmissão
natural - é aquela em que o plasmódio chega ao ser humano por
meio da picada de uma fêmea de anofelinos infectada, ou seja, portadora
de formas infectantes (esporozoítas) na sua glândula salivar
Transmissão induzida - é como se denomina qualquer outro modo
de transmissão que não a natural. São exemplos: transfusão de sangue;
uso compartilhado de agulhas e/ou seringas contaminados; malária adquirida
no momento do parto(congênita) e acidentes de trabalho em pessoal
de laboratório ou hospital.
Período
de transmissibilidade: Cerca de 8 a 16 dias depois de se alimentar
com o sangue de uma pessoa com malária portando gametócitos do plasmódio,
a fêmea do anofelino poderá passar a transmitir a doença para outras
pessoas através de sua picada a cada novo repasto sangüíneo, o que ocorre
a cada dois ou três dias. Também, há a possibilidade de continuar transmitindo
a doença por toda sua vida, que é de cerca de 30 dias.
Período
de incubação: Conforme apontado anteriormente, é o espaço de tempo
que vai da picada do mosquito infectado até o aparecimento do primeiro
sintoma e apresenta uma duração de, em média, 15 dias, na maioria dos
casos. Períodos muito mais curtos ou muito mais longos constituem eventos
pouco comuns. 3.
Suscetibilidade
e imunidade: A princípio, todo ser humano é suscetível à malária,
mesmo aqueles que já a contraíram por diversas vezes, uma vez que a
imunidade induzida pela presença do parasita nunca chega a conferir
proteção total. Em situações em que o indivíduo já apresentou dezenas
de episódios da doença, o que é bastante comum acontecer na África,
p.ex., poderá ser observado um abrandamento dos sintomas. Há casos em
que características individuais podem levar a uma resistência natural
à doença. São exemplos: a ausência de antígeno Duffy nos glóbulos vermelhos,
que os tornaria refratários à invasão pelo P.vivax ; hemoglobinopatias
(HbS) em que a invasão pelo P.falciparum é bastante reduzida
; enzimopatias, como a deficiência em glicose-6-fosfato desidrogenase,
em que os parasitas não apresentariam um bom desenvolvimento no interior
das hemácias. Nota-se que todas representam formas de proteção apenas
parcial, mas suficientes para evitar quadros mais graves.
4. ASPECTOS
CLÍNICOS
O conjunto de sintomas
e sinais conhecido como acesso malárico, caracteriza-se por intenso calafrio
seguido de elevação rápida da temperatura corpórea , acompanhada de náuseas
e/ou vômitos, dor de cabeça, dores musculares e abdominais. À medida que
a temperatura começa a baixar, o doente apresenta intensa sudorese. Este
acesso, que pode durar vários minutos ou horas, se repete com intervalos
diferentes, de acordo com a espécie do plasmódio, ou seja:
- P.vivax e
P.ovale - acessos em dias alternados, 48 em 48 horas
- P. malariae - os acessos se repetem cada 72 horas
- P. falciparum - com intervalos de 36 a 48 horas, por vezes com
febre ininterrupta.
Anemia, falta de
apetite, aumento do tamanho do fígado e do baço (hepatoesplenomegalia),
fraqueza e distúrbios gastrointestinais também podem estar presentes.
Apesar deste quadro preocupante, a malária quando causada pelo P.vivax,
P.ovale e P.malariae não é entendida como causa direta de eventuais
mortes. Diametralmente oposta pode ser a evolução de uma infecção por
Plasmodium falciparum que, se não diagnosticada precocemente e
tratada adequadamente, pode produzir quadros extremamente graves. A anemia
pode ser muito intensa, a função renal pode ser comprometida ou mesmo
falir totalmente, a função respiratória pode apresentar serias deficiências,
quadros neurológicos como confusão mental e coma igualmente podem ser
verificados. Enfim, como uma doença que provoca grande distúrbio sistêmico,
a morte pode ser o desenlace em cerca de 1 a 2% dos casos detectados.
5. DIAGNÓSTICO
CLÍNICO
Pela sintomatologia
típica da doença, podendo estar associada a presença de anemia e hepatoesplenomegalia
. Laboratorial: exame parasitológico de sangue (gota-espessa), métodos
imunocromatográficos (teste em fita: ParaSight-F, OptiMal®),
de biologia molecular (PCR) e sorológicos (imunofluorescência indireta,
elisa, etc...).
6. TRATAMENTO
A malária quando
detectada correta e precocemente é uma doença de tratamento bastante simples.
Para cada espécie do plasmódio é utilizado medicamento ou associações
de medicamentos específicos em dosagens adequadas à situação particular
de cada doente. Quando há retardo no diagnóstico, em especial em um caso
de infecção por Plasmodium falciparum, graves complicações podem
surgir, culminando com o óbito do doente. Para a classe médica do Estado
de São Paulo, encontra-se disponível o Manual de Terapêutica de Malária
- Sucen, 1998.
7. INVESTIGAÇÃO
EPIDEMIOLÓGICA
Atividade de grande
importância, é realizada após o diagnóstico do caso e é baseada na tomada
de informações do paciente para que seja possível identificar o local
provável de infecção, bem como avaliar a possibilidade de tratar-se de
um caso em que a infecção não foi adquirida pela forma natural de transmissão.
Caso haja a indicação de tratar-se de um caso autóctone, i.e., com transmissão
natural ocorrida no Estado de São Paulo, o controle do foco é competência
da SUCEN, que realiza:
a) o reconhecimento
e delimitação da área de foco;
b) pesquisas entomológicas para identificar a espécie de anofelino envolvida;
c) busca ativa de casos, com coleta de sangue, para exame laboratorial,
daquelas pessoas que estejam com sintomas da doença.
O uso de inseticidas
é avaliado e depende sempre da espécie de vetor, da espécie de plasmódio
e do número de casos registrados. Isto tem possibilitado a aplicação racional
destas substâncias, que nos últimos anos foram utilizadas em poucas oportunidades.
8. PREVENÇÃO
Apesar de vários
estudos, que vêm sendo feitos há muitos anos, ainda hoje NÃO EXISTE uma
vacina que confira proteção satisfatória contra a malária. É comum confundir
a vacina contra a febre amarela (anti-amarílica) como se fosse contra
a malária (anti-malárica), porém somente a primeira existe, é eficaz e
fundamental tomá-la quando se viaja para áreas onde existe o risco de
adquirir a febre amarela, as quais, de modo geral coincidem com as áreas
malarígenas.
Para se obter algum grau de proteção contra a malária , restam, portanto,
medidas de ordem pessoal, ou seja, a utilização de repelentes químicos,
mosquiteiros sobre as camas ou redes de dormir, telas nas janelas e portas
das habitações e evitar a permanência ao ar livre nos horários em que
os mosquitos se apresentam em maior quantidade, como o amanhecer (crepúsculo
matutino) e o anoitecer (crepúsculo vespertino).
Neste sentido, a educação em saúde tem-se utilizado de várias estratégias
para o envolvimento da população leiga e profissionais da área de saúde,
informando sobre a doença (modo de transmissão, quadro clínico, tratamento,
etc.),sobre o vetor(seus hábitos, criadouros ) e sobre as medidas de prevenção
e controle.
É comum ouvir que a Organização Mundial da Saúde e o C.D.C. dos Estados
Unidos recomendam a utilização de "tabletes" para evitar a malária. Apesar
de tratar-se de informação verdadeira, é preciso ter em conta que tais
tabletes são os mesmos medicamentos antimaláricos utilizados para o tratamento
da doença, aplicados em doses menores do que a do tratamento e, normalmente,
em intervalos semanais.
É importante destacar que em algumas oportunidades os medicamentos profiláticos
não conseguem evitar que a infecção se instale, mas podem levar a uma
falsa idéia de segurança, aumentando a chance de exposição aos vetores
e, ainda, dificultar a hipótese diagnóstica de malária quando surgirem
os sintomas. Como todo e qualquer medicamento, estes não são totalmente
isentos de efeitos colaterais que numa situação terapêutica podem ser
admitidos, uma vez que o benefício deles advindo é muito maior do que
os incômodos porventura provocados pelo seu uso.
Muitas são as variáveis que devem ser avaliadas, entre elas, o tempo de
permanência na área malarígena, tipo de habitação a ser ocupada no local,
recursos médicos na área, existência na região de outras doenças que possam
apresentar sintomas semelhantes à malária.
Enfim, a informação sobre os vários aspectos que possivelmente o viajante
poderá encontrar, que pode se constituir na melhor prevenção não só contra
a malária como contra outras doenças. Desta forma, a decisão pelo uso
de tais medicamentos como profiláticos deve ser tomada pela pessoa que
irá se expor à doença, com a orientação do seu médico de confiança.
9 - TESES E PUBLICAÇÕES
CIENTÍFICAS
- Dissertações
e teses
- Publicações
em periódicos
|