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FEBRE MACULOSA Elaborado
por Adriana Maria
L.VIeira
Definição: a febre maculosa é uma doença febril aguda, de gravidade variável, causada por bactéria e transmitida por carrapatos infectados. Agente etiológico: a doença é causada por uma bactéria intracelular obrigatória Rickettisia rickettsii, que sobrevive brevemente fora do hospedeiro. Os humanos são hospedeiros acidentais, não colaborando com a propagação do organismo. Vetores e reservatórios: os vetores são carrapatos da espécie Amblyomma cajennense. Também são chamados de "carrapato estrela", "carrapato de cavalo" ou "rodoleiro", as larvas por "carrapatinhos" ou "micuins" e as ninfas por "vermelhinhos". São hematófagos obrigatórios, necessitando de repastos em três hospedeiros para completar seu ciclo de vida. O homem é intensamente atacado nas fases de larvas e ninfas. Aspectos biológicos referentes a seus transmissores (ciclo evolutivo): as fêmeas após fecundadas e ingurgitadas desprendem-se do hospedeiro, caindo no solo para realizar postura única em torno de 5.000 a 8.000 ovos antes de morrer. Após o período de incubação - 30 dias à temperatura de 25ºC - ocorre a eclosão dos ovos e nascimento das ninfas hexápodes, ou seja, as larvas. Elas sobem pelas gramíneas e arbustos e aí esperam a passagem dos hospedeiros. Após sugar o sangue do hospedeiro por um período que varia de 3 a 6 dias, desprendem-se deste e no solo ocorre a ecdise - 18 a 26 dias -, transformando-se no estágio seguinte que é a ninfa octópode. As ninfas fixam-se em um novo hospedeiro e em 6 dias ingurgitam-se de sangue e, no solo, sofrem nova ecdise, o que leva mais 23 a 25 dias, transformando-se no carrapato adulto. Carrapato transmissor
de febre maculosa (Amblyomma cajennense - macho).
O Amblyomma cajennense completa uma geração por ano, mostrando os três estágios parasitários marcadamente distribuídos ao longo do ano. As ninfas hexápodes ocorrem basicamente entre os meses de março a julho e sobrevivem até 6 meses sem se alimentar. As ninfas octópodes (que sobrevivem até um ano sem se alimentar), entre os meses de julho a novembro e os adultos (que sobrevivem até dois anos), entre os meses de novembro a março. Os carrapatos Amblyomma cajennense são responsáveis pela manutenção da R. rickettsii na natureza, pois ocorre transmissão transovariana e transestadial. Esta característica biológica permite ao carrapato permanecer infectado durante toda a sua vida e também por muitas gerações após uma infecção primária. Hospedeiros: podem ser encontrados em todas as fases em aves domésticas (galinhas, perus), aves silvestres (seriemas), mamíferos (cavalo, boi, carneiro, cabra, cão, porco, veado, capivara, cachorro do mato, coelho, cotia, coati, tatu, tamanduá) e animais de sangue frio (ofídeos). Reservatórios: a infecção se mantém pela passagem transovárica e transestadial nos carrapatos. Diversos roedores e outros animais ajudam a manter o ciclo da doença. Transmissão: ocorre pela picada de carrapato infectado. Para que a bactéria R. rickettsii se reative e possa ocorrer a infecção no homem, é preciso que o carrapato fique aderido por algum tempo - de 4 a 6 horas. Pode também ocorrer contaminação através de lesões na pele, pelo esmagamento do carrapato. Susceptibilidade e imunidade: a susceptibilidade é geral e a imunidade provavelmente é duradoura. Período de incubação: o homem, após receber a picada infectante, leva de 2 a 14 dias (em média, 7 dias), para apresentar os primeiros sintomas. Período de transmissibilidade: não se transmite diretamente de uma pessoa para outra. O carrapato permanece infectante por toda sua vida, que dura, aproximadamente, 18 meses. E a maior incidência da doença é durante a primavera e o verão. A doença tem um começo súbito com febre de moderada a alta que dura geralmente de 2 a 3 semanas e é acompanhada de cefaléia, calafrios, congestão das conjuntivas. Ao terceiro ou quarto dia pode se apresentar exantema maculopapular, róseo, nas extremidades, em torno do punho e tornozelo, de onde se irradia para o tronco, face, pescoço, palmas e solas. São freqüentes petéquias e hemorragias. A doença pode também cursar assintomática ou com sintomas frustros. Alguns casos evoluem gravemente, ocorrendo necrose nas áreas de sufusões hemorrágicas, em decorrência de vasculite generalizada. Alguns problemas como torpor, agitação psicomotora, sinais meníngeos são freqüentes. A face é congesta e infiltrada, com edema peripalpebral e infecção conjuntival. O edema aparece também nas pernas, que se apresentam brilhantes. Outros sintomas comuns são tosse, hipotensão arterial e hipercitose liquórica. E observa-se hepatoesplenomegalia pouco acentuada. A letalidade é aproximadamente de 20% na ausência de uma terapia específica. A morte é pouco comum quando se aplica o tratamento precocemente. 3. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL E TRATAMENTO Laboratorial: os exames laboratoriais a serem feitos são o sorológico (para detectar a presença de anticorpos) e o de cultura (para isolar o agente etiológico). Tratamento: as drogas empregadas são o cloranfenicol ou tetraciclinas. Além dos antimicrobianos, são indispensáveis os cuidados médicos e de enfermagem dirigidos para as possíveis complicações, mormente as renais, cardíacas, pulmonares e neurológicas. 4. NOTAS HISTÓRICO-EPIDEMIOLÓGICAS A febre maculosa brasileira
é também chamada febre maculosa de São Paulo. A primeira descrição clínica
da doença foi feita em 1899, com um caso ocorrido na região montanhosa
do Noroeste dos EUA. Assim, deram-lhe a denominação de Febre Maculosa
das Montanhas Rochosas. A partir da década de 1930, a doença passou a
ser identificada focalmente em diversos países como o Canadá, México,
Panamá, Colômbia e Brasil. No Brasil, foi reconhecida pela primeira vez
no Estado de São Paulo, em 1929. A partir daí foram diagnosticados casos
nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em São Paulo, até a década
de 1980, os casos diagnosticados eram provenientes de municípios da área
metropolitana, tais como Mogi das Cruzes, Diadema e Santo André. 5.VIGILANCIA ACAROLÓGICA E MEDIDAS DE CONTROLE 1.
INTRODUÇÃO
Carrapatos
são artrópodes ectoparasitas, da classe Aracnoidea, de distribuição
mundial, parasitando vertebrados terrestres, anfíbios, répteis, aves e
mamíferos. QUADRO 1. Principais doenças causadas por patógenos transmitidos por carrapatos ao homem no Mundo e no Brasil.
*
Baseado em inquéritos sorológicos, com resultados positivos (Yoshinari
et al., 1997). A
importância dos carrapatos como transmissores da doença foi inicialmente
reconhecida nas ciências veterinárias. Em 1886, Theobald Smith descreveu
a então denominada Texas Cattle Fever, hoje conhecida como babesiose.
Alguns anos depois, em 1889 e 1890, o próprio Smith e Frederick Kilborne,
demonstraram a transmissão da doença por carrapatos. No início do século
20, os estudos de Ricketts nos EUA demonstraram a transmissão por
carrapatos da febre maculosa das Montanhas Rochosas, uma riquetsiose. Mais
tarde, a encefalite transmitida por carrapatos, uma infecção por flavivírus,
foi reconhecida como um problema de saúde pública da Europa Central à
Sibéria. Em 1929, Piza e Gomes descrevem o tifo exantemático paulista,
hoje conhecida como febre maculosa brasileira, uma riquetsiose. Além
de atuar como vetores de doenças, os carrapatos podem exercer por si só
diversos efeitos deletérios no organismo do hospedeiro, que vão desde a
anemia ocasionada por uma infestação maciça, à inoculação de toxinas
neurotrópicas que causam paralisia ascendente, eventualmente fatal.
Obviamente, tais efeitos variam conforme a espécie de carrapato e a área
geográfica. Cerca
de 90% das espécies de carrapatos parasitam exclusivamente animais
silvestres. As demais podem ser encontradas parasitando os animais domésticos
e humanos. Grandes partes das pesquisas têm sido dirigidas a carrapatos
de maior importância econômica. Por outro lado, o conhecimento das espécies
parasitas de animais silvestres torna-se relevante, já que muitas delas
participam diretamente na manutenção enzoótica de patógenos na
natureza. Além disso, a história mostra que algumas destas espécies,
antes confinadas ao ambiente silvestre, são vetoras de zoonoses
emergentes. 2.
FAUNA BRASILEIRA DE CARRAPATOS São
conhecidas cerca de 825 espécies de carrapatos no mundo, divididas em três
famílias: Ixodidae (625 espécies), Argasidae (195 espécies) e
Nuttallielidae (uma espécie) (Keirans, 1992). No Brasil, foram
identificadas 55 espécies, divididas em seis gêneros da família
Ixodidae e quatro gêneros da família Argasidae (QUADRO 2) (Aragão e
Fonseca, 1961; Guimarães et al., 2001). QUADRO 2. Número de espécies
conhecidas de carrapatos, segundo as famílias e gêneros da fauna
brasileira.
2.1
Família Argasidae Nesta
família, o gênero Argas
está relacionado com aves domésticas, estando presente em
galinheiros de “fundo de quintal”. O gênero Antricola
e algumas espécies de Ornithodoros
estão relacionados exclusivamente com morcegos. Outras espécies do gênero
Ornithodoros
estão relacionadas com aves e mamíferos, podendo parasitar humanos.
Os Argasídeos geralmente habitam ambientes bastante restritos, tais como
tocas, cavernas, ninhos, troncos de árvores, e até mesmo habitações.
Algumas espécies de Ornithodoros
têm sido encontradas parasitando humanos dentro de domicílios.
Nestes locais, os carrapatos saem de seus esconderijos no chão ou no
forro do telhado durante a noite, caminham em direção a pessoas
adormecidas, determinando uma picada muito dolorosa. A presença deste
carrapato em habitações humanas está associada à presença de morcegos
ou roedores que, como hospedeiros primários, mantêm a população de
carrapatos nestes locais. Carrapatos do gênero Ornithodoros são vetores de borrélias causadoras de febres recorrentes em diferentes partes do mundo. No Brasil, a espécie Ornithodoros brasiliensis é incriminada como vetor de Borrelia brasiliensis, cujo potencial de infecção humana é desconhecido (Davis, 1952). Outras espécies de Ornithodoros são incriminadas como potenciais vetores e reservatórios de Rickettsia rickettsii, agente causador da febre maculosa em humanos nas Américas (Davis, 1943). Algumas espécies de vírus, agentes de doenças humanas, já foram isoladas de diferentes espécies de Ornithodoros (Hoogstraal, 1985). 2.2
Família Ixodidae Esta família engloba a maioria das espécies de carrapatos do Brasil, dentre eles, os de maior importância médico-veterinária. Os gêneros Boophilus, Anocentor e Rhipicephalus, cada um representado por uma única espécie, são os principais carrapatos encontrados em bovinos, eqüinos e cães, respectivamente. Nenhum deles assume importância como parasita de humanos, embora sejam de grande importância em veterinária. As espécies dos gêneros Ixodes e Haemaphysalis estão restritas a aves e mamíferos silvestres, não havendo registros de parasitismo humano no Brasil. O gênero Amblyomma, o mais numeroso do Brasil (33 espécies), é o de maior importância médica, já que inclui as principais espécies que parasitam humanos neste país. Dentre elas, destacam-se Amblyomma cajennense, A. aureolatum e A. cooperi, que estão incriminadas na manutenção enzoótica e na transmissão da febre maculosa para humanos (Fonseca, 1935; Dias & Martins, 1939; Lima et al., 1995; Lemos et al., 1996). Na região Amazônica, outras espécies assumem maior importância no parasitismo humano, tais como A. ovale, A. oblongoguttatum e A. scalpturatum (Labruna et al. 2002a) Classificação dos Carrapatos
Fonte: Oliver, 1989; keirans, 1992; Klomph et el., 1996; Canicas et al., 1998).
3.
BIOLOGIA DE CARRAPATOS Todos
os carrapatos da família Ixodidae passam por quatro estágios em seus
ciclos de vida: ovo, larva, ninfa e adulto. Espécies da família
Argasidae se diferenciam por apresentarem de dois a oito estágios ninfais,
ao passo que espécies da família Ixodidae apresentam apenas um estágio
ninfal. A exceção dos ovos, todos os estágios precisam parasitar um
hospedeiro para dar seqüência ao ciclo. Dada a maior importância médico-veterinária
da família Ixodidae no Brasil, as informações biológicas descritas a
seguir são características desta família.
As mudas dos estágios
de larva para ninfa e de ninfa para adulto, para os gêneros Boophilus e
Anocentor, se realizam sobre a pele do próprio hospedeiro. Estas espécies
de carrapatos são classificadas como monoxenos ou carrapatos de um único
hospedeiro (Figura 3). Para as demais espécies de carrapatos do Brasil,
as mudas ocorrem após o desprendimento da larva ou ninfa ingurgitada do
hospedeiro. Estas espécies, que realizam as mudas fora do hospedeiro são
classificadas de trioxenos ou carrapatos de três hospedeiros (Figura 4).
hospedeiro,
pois uma vez que sobem neste, na fase de larva, irão desprender e cair ao
solo somente na fase de fêmea ingurgitada. É o caso do
carrapato-dos-bovinos (Boophilus microplus), e o
carrapato-da-orelha-dos-eqüinos, (Anocentor nitens). Uma vez eclodida no
ambiente, a larva sobreviverá apenas com as reservas energéticas
provenientes do ovo. Este é, portanto, o principal estágio de resistência
no ambiente. Larvas de B. microplus e A. nitens sobrevivem apenas poucos
meses no ambiente, às vezes menos que 60 dias nos meses mais quentes do
ano. Os carrapatos trioxenos precisam de três hospedeiros para completar a fase
parasitária,
ou seja, um para a larva, um para a ninfa e outro para o estágio adulto.
De modo geral, os estágios de larva e ninfa são os que apresentam menor
especificidade parasitária, podendo parasitar diferentes espécies, desde
aves até mamíferos de diferentes tamanhos. Já o estágio adulto
apresenta maior especificidade parasitária, restrita a apenas algumas espécies.
Tal comportamento faz dos carrapatos trioxenos os de maior importância na
transmissão de patógenos na natureza, pois o fato de parasitarem
diferentes espécies de vertebrados facilita o intercâmbio de agentes
causadores de doenças entre os hospedeiros.
3.1
Características Biológicas do Amblyomma cajennense Dada
sua importância na transmissão de doenças, ressaltam-se a seguir as
características biológicas do Amblyomma cajennense descritas por
Flechtmann (1985) e Guimarães et al. (2001).
O
Amblyomma cajennense é responsável pela manutenção da R.rickettsii na
natureza, pois ocorre transmissão transovariana e transestadial. Esta
característica biológica permite ao carrapato permanecer infectado
durante toda a sua vida e também por muitas gerações após uma infecção
primária. Portanto além de vetores, os carrapatos são verdadeiros
reservatórios da riquétsia natureza, uma vez que todas as fases
evolutivas, no ambiente, são capazes de permanecer infectadas meses ou
anos à espera do hospedeiro, garantindo um foco endêmico prolongado. 4.
EPIDEMIOLOGIA DOS CARRAPATOS DE IMPORTÂNCIA MÉDICA NO BRASIL Doença
de Lyme é uma enfermidade infecciosa causada por espiroquetas da espécie
Borrelia burgdoferi (sensu lato), veiculadas por carrapatos do gênero
Ixodes (Guimarães et al., 2001). Sensu lato significa que há variações
genéticas da espécie conforme a região considerada. A doença de Lyme
propriamente dita não foi encontrada no Brasil ou mesmo no hemisfério
sul, mas muito indiscutivelmente manifestações clínicas, muito
semelhantes, causadas por outras borrélias devam ser mais comuns do que
se tem identificado até o presente. Os casos descritos no Brasil como
doença de Lyme tiveram diagnóstico clínico e sorológico apenas, sendo
considerados como Lyme-símile (Silva, 2002 comunicação pessoal).
4.1
Amblyomma cajennense Este
carrapato está presente desde o sul dos Estados Unidos ao norte da
Argentina, incluindo algumas ilhas do Caribe (Figura 7). No Brasil, é
encontrado com abundância em todos os estados das regiões sudeste e
centro oeste, porém com distribuição limitada nas demais regiões
(Figura 8). É a principal espécie de carrapato que parasita seres
humanos no centro-sul brasileiro e é considerado o principal vetor da
febre maculosa brasileira. Seus ataques a humanos, muitas vezes em massa,
são
respondidos
com reações de hipersensibilidade imediata ou retardada a antígenos
específicos presentes na saliva do carrapato, podendo causar intenso
prurido, que persiste por vários dias no local de fixação. Infecções
bacterianas secundárias podem ocorrer em função da deposição de bactérias
nas feridas, durante ao ato de coçar intensamente (Aragão e Fonseca,
1953a).
Nas
áreas rurais da região Sudeste, os eqüinos são os principais
hospedeiros para todos os estágios do A. cajennense, muito embora
diversas espécies de mamíferos e aves silvestres possam ter participação
efetiva. Esta maior importância dos eqüinos pode ser avaliada pela
grande capacidade de albergar altas infestações. Em condições
naturais, um único eqüino pode se apresentar parasitado por mais de 50
mil larvas, ou mais de 12 mil ninfas, ou mais de 2 mil adultos de A.
cajennense, sem que sua vida esteja em risco (Labruna, 2000). Por outro
lado, os animais silvestres, especialmente os de pequeno e médio porte,
dificilmente estarão albergando uma carga tão alta de carrapatos, ou se
estiverem, suas vidas muito provavelmente estarão em risco. Além disso,
os eqüinos, por serem animais domésticos, são criados em áreas
cercadas, com altas densidades de animais. Tal fato é extremamente favorável
às larvas recém-eclodidas ou ninfas e adultos recém-mudados, que se
encontram no ambiente à espera da passagem de um hospedeiro. Como regra
geral, pode-se dizer que quanto maior a densidade populacional de
hospedeiros, maior será a população de carrapatos. Por esta razão, nos
ambientes silvestres, com o mínimo de intervenção humana, as populações
de carrapatos tendem a ser mais baixas, já que a densidade de hospedeiros
(entendida aqui como oferta de alimento para os carrapatos) vai ser
significativamente menor. Embora
o A. cajennense tenha uma baixa especificidade parasitária, para que uma
população esteja estabelecida numa área, há dois pontos críticos a
serem considerados: 1-
A presença de hospedeiros primários. 2-
Condições ambientais favoráveis às fases de vida livre (não parasitárias)
do carrapato. Em
termos práticos, um hospedeiro primário é o vertebrado, sem o qual, uma
determinada população de carrapato não é capaz de se estabelecer numa
determinada localidade. Para o A. cajennense, os hospedeiros primários são
os eqüinos, as antas e as capivaras. Numa área onde uma população de
A. cajennense está estabelecida, pelo menos uma destas três espécies de
hospedeiros deverá estar presente. Uma vez que a população de
carrapatos cresce, ela passa a parasitar outros hospedeiros, chamados
secundários. Na literatura há diversos relatos do parasitismo por A.
cajennense em dezenas de espécies de hospedeiros mamíferos e aves. Como
regra geral, quanto maior a população de A. cajennense numa determinada
área, maior a chance de encontrá-lo parasitando outras espécies de
hospedeiros, humanos inclusive. De fato, a ocorrência de infestação
humana por A. cajennense está associada a altas infestações por este
carrapato em seus hospedeiros primários (eqüinos, antas e capivaras) (Labruna
et al., 2001). Na região de Campinas, em levantamento das espécies, o A
cooperi apareceu em freqüência significativa similar ao A. cajenennse.
Nessas áreas não ocorre presença de eqüinos, sendo as capivaras os
hospedeiros primários predominantes para A. cajennense (Souza et al.,
2002). Em
algumas áreas, mesmo na abundância de hospedeiros primários para A.
cajennense, este pode não se estabelecer em função de condições
ambientais, que não propiciem um microclima adequado para as fases de
vida livre do carrapato. Estas condições são dependentes principalmente
da latitude (baixas temperaturas ao sul do estado do Paraná limitam o
estabelecimento deste carrapato) e do tipo de cobertura vegetal, que vai
influir diretamente no microclima do solo. Tanto a presença como a abundância
de populações de A. cajennense estão fortemente associadas à presença
de áreas com média a densa cobertura vegetal, tais como pastos
“sujos”, capoeiras e matas (Figura 10). Na região de Campinas, a mata
ciliar (Figura 11) apresenta- se como um ecossistema importante no
estabelecimento de populações de A.cajennense e de destaque na
epidemiologia da febre maculosa, já que essas áreas são o principal refúgio
de grandes populações de capivaras naquela região. Por outro lado, áreas
de pastos limpos limitam o estabelecimento deste carrapato, mesmo na
fartura de hospedeiros primários (Figura 12).
4.2
Amblyomma aureolatum Esta
espécie é encontrada em diversos países da América do Sul; no Brasil,
especialmente em áreas de mata atlântica das regiões sul e sudeste
(Figura 13). O A. aureolatum já foi incriminado como vetor da febre
maculosa para humanos no Estado de São Paulo (Dias & Martins, 1939).
Em dois casos registrados da doença na área rural de Mogi das Cruzes,
SP, esta espécie foi a única encontrada nos animais domésticos e
humanos, em grandes números (SUCEN, 1989; Fontes et al., 2000).
Carnívoros
silvestres são os hospedeiros primários para o estágio adulto, embora
os cães criados em algumas áreas rurais se comportem como hospedeiros
primários. As larvas e ninfas parecem estar associadas a roedores e aves
silvestres (Fonseca, 1935; Arzua, 2002), não havendo registros em carnívoros.
Somente o estágio adulto tem sido encontrado parasitando humanos. 4.3
Amblyomma cooperi Esta
espécie está presente de norte ao sul na América do Sul. No Brasil, é
relatado nos estados das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste (Figura 14).
As capivaras são consideradas hospedeiros primários para todos os estágios
parasitários de A. cooperi. Embora haja controvérsias sobre o
parasitismo humano por este carrapato, sua importância médica se baseia
principalmente numa possível participação no ciclo enzoótico de riquétsias
na natureza, já que as capivaras são consideradas potenciais reservatórios
de R. rickettsii (Vallejjo Freire, 1942a, b). Além disso, grandes populações
de A. cooperi têm sido encontradas, juntamente com a espécie A.
cajennense, em alguns focos de febre maculosa na região sudeste (Souza et
al., 2001).
5.
VIGILÂNCIA ACAROLÓGICA Considerando
o importante papel desempenhado pelos carrapatos como vetores e reservatórios
de doenças e o desconhecimento da magnitude da febre maculosa brasileira
no Estado de São Paulo, há a necessidade de se estabelecer critérios de
vigilância voltados para o agente transmissor, com o objetivo de prevenir
a sua transmissão, assim como de outras transmitidas por carrapatos.Dessa
forma, propõe-se um sistema de vigilância passiva, através de notificação
visando reconhecer, inicialmente, as áreas com altas infestações por A.
cajennense e/ou A. aureolatum e, portanto de risco para febre maculosa
brasileira. Esta modalidade de vigilância tem como vantagem o baixo custo
e uma maior simplicidade na montagem da rede de notificação. As unidades
que comporão essa rede devem ser definidas em conjunto com a vigilância
epidemiológica municipal. O desenvolvimento das ações será desencadeado a partir de dois tipos de notificação:
5.1
Notificação de Infestação Humana Recomenda-se
que a população encaminhe os exemplares de carrapatos coletados às UBS
ou serviços de controle de zoonoses, que por sua vez, os encaminharão
aos Serviços Regionais da SUCEN (SR - SUCEN) ou ao Laboratório de Referência
da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São
Paulo para identificação. O fluxo de notificação, mais detalhado é
apresentado no QUADRO 3. Deverá
ser preenchido boletim próprio fornecido pela SUCEN (Anexo 1 “Boletim
de Notificação de Infestação Humana por Carrapatos) e a amostra
acondicionada conforme descrito no item 6 deste manual, devidamente
etiquetada (Anexo 2 “Modelo de Etiqueta”), e encaminhada ao SR –SUCEN,
que procederá a identificação. Uma
vez identificado o gênero ou espécie de carrapato duas condutas poderão
existir:
As
atividades educativas deverão ser realizadas para conscientização da
população sobre os riscos de infestação por carrapatos, informando-os
sobre as medidas preventivas para evitar a infestação por carrapatos.
5.2
Notificação de Casos de Doenças Transmitidas por Carrapatos A
notificação de caso suspeito ou confirmado de doença transmitida por
carrapatos deve ser feita pela UBS ou por outro serviço de saúde ao SR
– SUCEN,através do envio de cópia da ficha de investigação epidemiológica,
conforme o fluxo detalhado no QUADRO 4.
6.
MÉTODOS DE COLETA, ACONDICIONAMENTO, PRESERVAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE
CARRAPATOS Os
carrapatos podem ser coletados em fase parasitária, sobre os animais
(fixados à pele de seus hospedeiros) ou em fase de vida livre (no meio
ambiente). 6.1
Coleta em Animais Os
carrapatos fixados aos animais são coletados simplesmente retirando-os da
pele do hospedeiro, através de torções leves, seguidas de movimentos de
tração, com a utilização de pinça (Figuras 15a e 15b), permitindo que
os carrapatos sejam retirados inteiros, evitando-se a quebra do hipostômio,
imprescindível para a identificação. É contra-indicada a retirada
utilizando-se calor (fósforos, por exemplo), bem como métodos que possam
perfurá-los, comprimi-los ou esmagá-los evitando-se a eliminação de
secreções e excreções que possam conter patógenos. Todos os
carrapatos coletados de um mesmo animal devem ser armazenados num mesmo
frasco. Carrapatos coletados de diferentes animais nunca devem ser
misturados em um mesmo frasco. Os frascos contendo carrapatos devem ser
acondicionados e identificados (vide item 6.3).
6.2
Coleta no Meio Ambiente 6.2.1
Técnica de arrasto com flanela branca Esta
técnica consiste na utilização de uma flanela branca com dimensões de
1,50m de comprimento por 0,80m de largura, com duas hastes de ferro
(vergalhão), de madeira ou canos de ferro, de 0,85m e meia polegada de diâmetro,
transpassadas em presilhas feitas em cada extremidade da mesma, com o
objetivo de manter a flanela aberta e o mais próximo possível da vegetação.
Se necessário deve-se fixar pesos na extremidade posterior (Oliveira,
1998), com aproximadamente um quilo e meio no total, como apresentado na
Figura 16.
A técnica de
arrasto é indicada tanto para locais com vegetação do tipo herbácea
(gramíneas, leguminosas, compostas e outras forrageiras), como para áreas
de confinamento de animais (pastos) ou peridomicílio (Figura 17). Deve-se
percorrer toda a extensão da área, andando lentamente e parando a cada
10 metros, para verificação e coleta de indivíduos capturados sobre a
face da flanela que é arrastada em contato com a vegetação. Em áreas
de pastagens, a flanela deve ser arrastada seguindo a rota esquematizada
na figura 18. Esta técnica é satisfatória para a coleta de estágios
imaturos (larvas e ninfas), sendo menos eficiente para o estágio adulto
(Oliveira et al., 2000).
Ao
caminhar pelas matas, durante o arrasto da flanela, deve-se sempre
vasculhar as roupas e o corpo à procura de carrapatos no máximo a cada
quatro horas. Estes devem, também, ser coletados e agrupados
separadamente com os capturados pela flanela, compondo uma nova amostra
(Figura 19).
6.2.2
Técnica de armadilha de CO2
espécies,
moderadamente eficazes para o estágio de ninfas e pouco eficazes para as
larvas (Oliveira et al., 2000). De modo geral, estas armadilhas podem
atrair e capturar carrapatos adultos num raio de até 10m (Balashov, 1972;
Koch and MacNew, 1982). 6.3
Acondicionamento e Preservação Os carrapatos coletados no campo deverão ser acondicionados em frascos de plástico branco ou preto, como os de filme fotográfico ou de coletor universal. Para mantê-los vivos, o frasco deverá estar totalmente seco, e os carrapatos deverão ser colocados no seu interior juntamente com alguns pedaços de folhas verdes frescas, de qualquer tipo de vegetação (Figura 21A). Pequenos furos, realizados com a ponta de uma agulha, deverão ser feitos na tampa do frasco (Figura 21B). Os carrapatos mortos deverão ser encaminhados preservados em álcool etílico a 70%.
(A): coloque os
carrapatos em um frasco seco, apenas com algumas folhas verdes frescas. (B):
Faça pequenos furos na tampa do frasco. (C): Identifique o frasco com o
nome do hospedeiro, data, local e capturador. Fotos cedidas por Marcelo
Labruna FMVZ, USP. Cada
frasco deverá ser devidamente identificado com o número da amostra, a
data da coleta, a localidade, o hospedeiro (quando for o caso), o nome do
capturador e o número de notificação do Boletim de Investigação de
Foco de Carrapato (Figura 21C). O
Boletim de Investigação de Foco de Carrapato (Anexo 3) deverá ser
preenchido na localidade de pesquisa e encaminhado ao laboratório junto
com as amostras de carrapatos coletadas. No
laboratório, os carrapatos deverão ser mortos em água quente e poderão
ser preservados em:
Quando
o destino dos carrapatos for a tentativa de isolamento de riquétsias de
seus órgãos, os carrapatos devem ser congelados, em tubos criotubos
secos, quando ainda estiverem vivos, em nitrogênio líquido ou em freezer
a -80oC. 6.4
Identificação Taxonômica Para
a identificação taxônomica dos carrapatos, é necessário um microscópio
estereoscópico, com iluminação incidente. Esta identificação deve
obrigatoriamente seguir três passos:
7.
ATIVIDADES EDUCATIVAS Paralelamente às ações de controle do vetor, cabe às Secretarias Municipais de Saúde, através das áreas de vigilância epidemiológica, vigilância sanitária e educação em saúde, orientar a população sobre o risco de contrair a febre maculosa. Atualmente, existem áreas conhecidas de transmissão da doença e, as atividades de orientação e divulgação à população poderão contribuir para a identificação de novas áreas, dessa forma, as ações deverão ser desenvolvidas visando atingir a população de risco nas duas situações. 7.1
Áreas de Reconhecida Transmissão Nas
áreas onde já existe histórico de transmissão da doença, a população
usuária do local, deverá ser orientada a vistoriar o corpo
minuciosamente a cada 2 ou 3 horas após a exposição, à procura de
carrapatos; sobre a forma correta de retirada de carrapatos, torções
leves seguidas de movimentos de tração e utilização de barreiras físicas
no corpo tais como calças compridas com a parte inferior no interior de
botas de cano alto, roupas claras para visualização dos
carrapatos.
Em
áreas de residências ou trabalho, recomenda-se uma ação mais efetiva,
incluindo visitas com medidas que possam ser adotadas, pela população
visando uma menor exposição ao vetor. 7.2
Áreas de Transmissão Não Reconhecida Nestas
situações, recomenda-se o trabalho com grupos específicos de risco,
tais como: pescadores, caçadores, tratadores de animais etc. As
atividades deverão incluir, tanto a vestimenta adequada, como a retirada
correta dos carrapatos e a procura urgente a serviços de saúde em sinais
de febre após terem sido parasitados por carrapatos (Anexos 6 e 7). Os
proprietários de estabelecimentos que comercializam produtos veterinários
e às clínicas veterinárias deverão ser orientados para que possam
estar colaborando na divulgação de medidas a serem adotadas a população
usuária. O trabalho com estes proprietários poderá ser realizado pela
vigilância sanitária, quando das visitas a estes estabelecimentos. Deverão
ser desenvolvidos trabalhos de orientação e de divulgação direcionados
para festas de peão, feiras ou exposições agropecuárias e atividades
de ecoturismo. 8. MEDIDAS
PREVENTIVAS É
sabido que, uma vez fixado ao hospedeiro, um carrapato infectado leva um mínimo
de seis horas para transmitir a riquétsia. Sendo assim, quanto mais rápido
uma pessoa retirar os carrapatos de seu corpo, menor será o risco de
contrair a doença. Quando uma pessoa é atacada por poucos carrapatos,
torna-se relativamente mais fácil e prático retirar todos estes
carrapatos num curto espaço de tempo. Por outro lado, quando uma pessoa
é atacada por uma alta carga de carrapatos (Figura 23), dificilmente ela
consegue retirar todos nas primeiras horas, passando alguns despercebidos
por várias horas, ou até mesmo alguns dias. Diante de tais fatos, é
obvio dizer que, quanto maior a população de carrapatos em uma área endêmica
para febre maculosa, maior é o risco de se contrair a doença. Como não
existem vacinas para serem utilizadas em humanos, como medidas profiláticas
da febre maculosa, a medida preventiva mais eficaz é o controle das
populações de carrapatos a níveis mínimos, reduzindo substancialmente
os riscos de infestação humana.
Quando
a exposição a carrapatos é inevitável, recomenda-se o uso de mangas
longas, botas e de calça comprida com a parte inferior dentro das meias,
todos de cor clara para facilitar a visualização dos carrapatos, e após
a utilização, todas as peças de roupas, devem ser colocadas em água
fervente para a retirada dos mesmos. A
Organização Mundial de Saúde (1997) refere que repelentes para
carrapatos não são comumente aplicados sobre a pele e sugere para
prevenir ataques de carrapatos e, para proteção mais duradoura, a
impregnação de roupas com PERMETHRIN a 0,65-1g de ingrediente ativo/m2
como o melhor produto, mas DEET e BUTOPYRONOXYL como sendo também
efetivos. No Brasil, não se tem conhecimento sobre a eficácia da utilização
de repelentes para carrapatos. 9.
CONTROLE DE CARRAPATOS 9.1
Amblyomma cajennense Em
áreas endêmicas de zoonoses transmitidas por carrapatos, apenas uma
parcela da população de carrapatos se apresenta infectada pelo agente.
Esta parcela varia conforme a doença, assim como o contexto temporal e
espacial. Logo, nessas áreas endêmicas, quanto maior o grau de infestação
humana, maior é o risco de uma pessoa ser parasitada por um carrapato
infectado. O A. cajennense é o principal vetor da febre maculosa no Brasil. Para que suas populações estejam excessivamente aumentadas, há a necessidade, principalmente, de condições ambientais favoráveis às fases de vida livre. Tais condições seriam pastos “sujos”, com formações de capoeiras ou matas. Uma vez estabelecida a condição ambiental favorável ao carrapato no ambiente, é necessária a presença de hospedeiros primários, que podem ser eqüinos, antas, ou capivaras. Com relação aos eqüinos, e até mesmo às antas, poucos indivíduos seriam suficientes para propiciar uma grande multiplicação de carrapatos, já que um único animal pode | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||